Editorial Publicado na Revista Jesuítas de dezembro/2006.
CENTROS LOYOLA DE FÉ E CULTURA
Por José Antônio Netto de Oliveira, sj (Orientador de Exercícios, Escritor e Jesuíta)
Os Centros Loyola de Fé e Cultura são obras da Companhia de Jesus, criadas e mantidas por ela, mas confiadas aos leigos que se responsabilizam por sua direção, programação e organização. Tendo como inspiração básica a espiritualidade inaciana, o objetivo dos Centros Loyola é sistematizar e apoiar a formação cristã do laicato, dentro do que constitui a contribuição específica que a Companhia de Jesus é chamada a prestar à Igreja e à sociedade, a saber: o serviço da fé, a promoção da justiça do Reino, a opção pelos pobres e o diálogo da fé com as culturas e as religiões.
O Concílio Vaticano II proclamou o fim de uma visão piramidal de Igreja em que a hierarquia eclesiástica e o clero ocupavam o vértice e o laicato a base, visão que predominou durante quase todo o segundo milênio. O Concílio convidou-nos a viver a Igreja como a comunidade do Povo de Deus em marcha na qual todos os batizados, hierarquia e laicato, somos importantes. Neste novo modo de ser Igreja os/as leigos/as têm grande responsabilidade e um lugar insubstituível por constituirem a imensa maioria dos batizados e, por conseguinte, serem os portadores da maioria dos dons e carismas com que o Espírito Santo enriquece o Povo de Deus para o testemunho cristão e a evangelização do mundo.
Esta nova visão eclesiológica proclamada pelo Concílio vem lentamente despertando a consciência eclesial para a importância do laicato e sua indispensável participação na evangelização do mundo contemporâneo. A Conferência do Episcopado Latino-americano de 1992, em Santo Domingo, fala do "protagonismo dos leigos" na Igreja, e a Congregação Geral 34а da Companhia de Jesus (1995) afirma que a Igreja do terceiro milênio será a "Igreja do laicato"(D.13, n.I).
Séculos de vivência de uma concepção "piramidal"de Igreja, dividida em duas classes: de um lado os clérigos, supostamente perfeitos, e de outro o laicato, um rebanho mais ou menos passivo ao qual se tinha que dizer como se comportar e o que fazer, criaram hábitos arraigados que não se mudam por decreto ou por uma simples reformulação conceptual. De fato, vivemos ainda em uma Igreja que é muito clerical: o clero inseguro diante desta nova situação eclesial e com medo de perder poder, e os leigos igualmente inseguros e despreparados para assumir suas responsabilidades e ocupar seu lugar na missão evangelizadora do mundo secular. Todos somos chamados a uma conversão a essa nova maneira de sermos e nos sentirmos Igreja, numa franca, fraterna e respeitosa colaboração na missão comum que todos os batizados recebemos de nosso divino Salvador: "Ide pelo mundo inteiro e anunciai o evangelho a toda criatura".
A criação dos Centro Loyola de Fé e Cultura é um dos sinais de que a Companhia de Jesus se propõe assumir o desafio de uma "Igreja do laicato" apoiada no decreto 13 de sua última Congregação Geral, que coloca a formação dos leigos/as como parte integrante de sua missão.
Uma vivência profunda dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio deve levar-nos a sermos, jesuítas e leigos/as, verdadeiramente irmãos e, juntos, levarmos Boas Notícias a um mundo secularizado.
Somo chamados a constituir uma "comunidade de fé", formada por jesuítas e leigos/as, com uma missão comum, tendo como meta tecer uma verdadeira "Rede Apostólica Inaciana". Para alcançarmos este objetivo ainda resta-nos um longo caminho a percorrer, mas vamos dando passos nesta direção e agradecemos a colaboração que os Centros Loyola de Fé e Cultura têm dado na aproximação fraterna entre jesuítas e leigos, na partilha de nossa caminhada de fé e na responsabilidade pela missão evangelizadora.